Análise da GVT: de antes da Vivendi até a entrada em São Paulo

Vou fazer uma pequena análise sobre o case de sucesso da GVT nesse artigo. Espero comentários do pessoal de telecom :-) . É bem interessante. Vou deixar claro aqui que a GVT é uma das empresas que admiro muito, pois sempre tiveram seriedade e nos atenderam muito bem tanto no corporativo quanto na pessoa física.

GVT em São Paulo

O público residencial de São Paulo não conhece a GVT. Estive por lá semana passada e conversei com algumas pessoas, e ninguém sabia o que era a GVT. Os clientes de ADSL de lá estão muito mal acostumados com o serviço do Speedy. Tanto é que meus amigos paulistas me disseram que está todo mundo indo para a Net.

Agora vai entrar a GVT em São Paulo [1] e vão investir forte [2]. Nela os funcionários não são tercerizados. Até o call center não é tercerizado e o suporte deles já é bom (opinão de cliente) e querem investir mais nisso para ser diferenciação da concorrência [3]. Aqui no Rio Grande do Sul a GVT é, de longe, a melhor alternativa em ADSL. A Oi/Brasil Telecom simplesmente peca em tudo que é detalhe. Mas pelo que comentam em São Paulo, a Oi é bem superior ao que era o Speedy da Telefônica. E a GVT tem experiência. São mais de 1 milhão de assinantes [4]. Imagino quando o público souber que a GVT oferece um serviço excelente. Não sei se a estrutura que a GVT está montando dará conta do sucesso comercial que deverão ter.

Como a GVT utiliza o PTT para ganhar escala

A GVT faz parecido com a Net Virtua, oferece planos com muitos Mbps de banda, ambas começaram pequenas e foram tomando mercado com ofertas com preço baixo (Mbps ofertado dividido pelo preço). Por exemplo, na GVT é possível contratar ADSL de 100 Mbps. Ambas não são telecom gigantes como a Oi e a Telefônica. Ambas estão conectadas ao PTT (leia nosso artigo sobre o PTT) e com isso conseguem ter um custo de Mbps menor mesmo não tendo a escala das gigantes. Funciona assim: um bom percentual (eu diria um quarto) dos conteúdos que o usuário da Net Virtua e da GVT querem acessar, estão em provedores de conteúdo que trocam tráfego diretamente pelo PTT com a Net Virtua e a GVT. Isso gerou a possibilidade de elas crescerem muito no volume de tráfego e ganhar corpo. Uma vez que tiver tamanho suficiente, resta saber se vão continuar no PTT. Poderia apostar que sim, pois a GVT até é um PIX agora em São Paulo. Mas nunca se sabe.

A imagem acima são as trocas de tráfego de madrugada às 1:30. No horário GVT estava com 120Mbps de 10Gbps do momento, ou seja, 1,2% das trocas do PTT de SP.

Note que a BRT mantém um PIX, a Telefônica também, mas isso não quer dizer que elas troquem tráfego pelo ATM (Acordo de Troca Multilateral), ou seja, só trocam tráfego com pouquíssimas empresas que a eles interessam.

Aliás, seria ótimo se a GVT viesse a ter custos de link menor que as concorrentes por causa do PTT e com isso estas tenham que fazer isso também. Utopia.

As grandes telecoms não trocam pelo PTT

A Oi e a Telefônica não apenas não trocam tráfego pelo PTT, como também não o fazem diretamente com os provedores de conteúdo. Que eu saiba quase ninguém tem troca tráfego com essas empresas. Claro, veja só, se eles trocarem tráfego com os provedores, estes deixarão de comprar banda com as telecoms ou pelo menos vão comprar muito menos. Pelas medições que fiz, a Oi e a Telefônica são cerca de 30% do interesse de tráfego que a TeHospedo tem. Então, imagina, seria 30% menos de faturamento com venda de link Internet! Porque fariam isso de graça? Nem mesmo a melhoria dos serviços de internet no Brasil justificaria. É calculo econômico. Estão certos. O governo não ajuda, não regulamenta. Muito se falou sobre isso, aliás, no 4º PTT Fórum. Os palestrantes falaram muito sobre esse tipo de decisão.

A Vivendi distribuindo conteúdo multimídia pela GVT

Voltando a GVT, agora que foi comprada [5] pela Vivendi, a GVT vai querer vender sempre 10Mbps. Lá em casa tenho GVT. Participei de uma promoção um ano e pouco atrás que, em 12 meses, o plano ficava 10 Mbps por um valor reduzido. Não tinha opção de renovar. Mas aí venceu o primeiro ano e me ligaram. Disseram que por apenas alguns reais (acho que foi menos de R$ 10,00) iriam manter a oferta. A GVT já chega em tudo que é cliente com fibra. Para levar 10 Mbps para todos é natural e mais fácil que os concorrentes dela. Basta, claro, ter equipamentos. Hoje 10 Mbps de roteadores e equipamentos para ADSL não é tão mais caro que ter equipamentos para 1 Mbps quanto era 5 anos atrás. Mas o que a Vivendi tem a ver com isso? Bem, a Vivendi o negócio dela é conteúdo (vídeo e áudio). Não apenas geração como também distribuição [6]. A GVT será a distribuidora desse conteúdo. 10 Mbps é uma velocidade perfeita para distribuir TV pela Internet. Tranquilamente é possível navegar, assistir vídeo e efetuar downloads com essa banda. Já estão oferecendo conteúdo da Universal Music [7].

O modelo de negócios da GVT nas mãos dos novos donos

A GVT é um modelo de negócios que funciona muito bem, tem crescimento orgânico e que tem presença no enorme mercado brasileiro. Tem capacidade de distribuir conteúdo e a Vivendi viu nisso, a oportunidade que precisava para entrar no Brasil. Como a Vivendi não tem um know-how enorme em telecom, acredito que o modelo de operação da GVT vai permanecer como é.

Quando a Vivendi venceu a Telefônica na batalha pela compra da GVT eu fiquei muito feliz. Cheguei a comemorar aqui no escritório. Estava preocupado, entre outras coisas, com a perda de concorrentes e também com a saída da GVT do PTT.

E o governo, o que faz pelo PTT?

Que o PTT Metro tem altos custos de capital de de operação (capex o opex), isso é fato. Os técnicos são caros. Algum eventual transporte de dados é caro. Algum eventual trânsito de dados (link internet) é caro. Os equipamentos (switches 10G empilhados!) são caros. Quem opera o PTT Metro é o Comitê Gestor (CG) e esse utiliza praticamente os recursos da anuidade do registro de domínios para operar. Ou seja, o Brasil (nós) oferecemos os lucros do serviço de registro de domínios (que são altíssimas margens de contribuição) ao CG. Ou seja, o PTT Metro é bancado com recursos públicos. Me corrija alguém do Comitê Gestor, se eu estiver errado. Apesar disso, o governo e os legisladores poderiam fazer muito mais!

Se o governo quer universalizar a internet, não basta fazer a Telebrás vender banda barata para os provedores do interior (eles pagam muito caro hoje para as telecoms). Também não basta obrigar as telecoms a oferecer banda larga por baixo custo para a população. Muito melhor seria o custo do Mbps cair para todo o mercado, colocando regras para as teles trocar tráfego pelos PTTs.

Update: 28/10/2010 – artigo no Baguete sobre a discussão entre Rogério Santanna, da Telebrás com os presidentes das telecoms durante a Futurecom, vale pena a leitura.

Referências

[1] GVT chega a São Paulo em 2011
[2] GVT pode investir R$ 408 mi em rede de telecomunicações em SP
[3] GVT quer se diferenciar em call center, diz vice-presidente da empresa
[4] GVT anuncia marca de 1 milhão de clientes de banda larga
[5] Vivendi dribla a Telefônica e compra a GVT
[6] Wikipédia: Ativos da Vivendi
[7] Operadora GVT vai distribuir conteúdo da Universal Music

Sobre o autor

Roberto Bertó (http://twitter.com/darkelder) é diretor e fundador da TeHospedo, empresa de serviços de internet como hospedagem de sites e servidores cloud. Há 8 anos gerencia o marketing da TeHospedo. A TeHospedo também oferece o serviço TeContato, ferramenta de email marketing, o qual é usado por centenas de empresas. É desenvolvedor web há mais de 12 anos.
Formado em Ciências Contábeis pela UFRGS, está cursando um MBA em Marketing na FGV-RS.


Tudo sobre o PTT

Neste artigo vou falar sobre como funciona o protocolo de roteamento da internet, o BGP4, e também sobre como funciona o projeto e as vantagens do PTT Metro

BGP

O protocolo que gerencia o roteamento da Internet é o BGP. Mas como tudo funciona?

  • Existem sistemas autônomos (AS de autonomous system) na Internet, que são como se fossem seus gerentes. De forma simplista: cada AS está interligado com outros AS de forma física, ou seja, a Internet na verdade pode ser representada por um enorme diagrama com cada AS interligado aos seus AS vizinhos.
  • A conexão entre um AS e seus pares pode ser por meio ótico, rádio, ou cabo metálico, para citar alguns. Pode ser com qualquer velocidade de conexão, seja 10mbps, 1000mbps gbps ou superior.
  • Uma conexão entre dois computadores (dois ips) vai percorrendo alguns AS ate chegar no seu destino.
  • A conexão ser entre dois AS fisicamente conectados costuma ser  mais rápido do que se houver intermediários.
  • Cada AS controla seus blocos de IPs e determina politicas de roteamento, ou seja, é possível fazer com que um ip sempre use a conexão da Intelig para chegar no Google, por exemplo, e que outro ip sempre saia pelo link da GVT.

A TeHospedo é um AS e tem o mesmo nível hierárquico na Internet de qualquer telecom e com isso gerencia o roteamento de seus IPs. Não são todos os provedores de hospedagem que são AS, de fato somente alguns o são.

PTT Metro

O PTT Metro (Ponto de Troca de Tráfego) é um projeto do Comitê Gestor (o mesmo que organiza o Registro.br) e consiste basicamente de alguns equipamentos (switches) em cada uma das 14 atuais cidades atendidas pelo projeto: Belo Horizonte, Brasília, Campina Grande, Campinas, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, Londrina, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

Pelas conversas com diversos provedores membros do PTT Metro e também pelos dados internos da TeHospedo, entre 25% e 30% do tráfego total da internet brasileira passa pelo PTT!

Para participar, cada provedor (AS) leva um cabo de rede até o switch do PTT Metro e com isso passa a trocar tráfego gratuitamente e diretamente com os demais membros. Geralmente a conexão entre os participantes é gigabit. Tudo isso faz com que não apenas os serviços de hospedagem de sites e acesso à internet sejam mais econômicos, como também tenham mais velocidade e qualidade.

Para ter uma ideia do que é um gigabit: pelos dados que a TeHospedo tem do setor e uma projeção que fizemos, cada um dos 10 maiores provedores de hospedagem do Brasil só terão um uso de internet gigabit somente em 2012.

Mas não pense que aqueles 10 mbps de seu ADSL é muito! É muito se você usasse 100% do tempo, só que você deve usar apenas uma pequena parte do link. Eu chutaria uma média de 5% de uso, se muito. Sabendo disso, a telecom que te presta o serviço de banda larga também te cobra somente uma parcela do que deveria cobrar pela conexão, é o que chamamos no meio de overcommit.

A TeHospedo está conectada no PTT de São Paulo, na qual troca tráfego com quase outros 150 provedores de acesso, provedores de hospedagem de site, conteúdo, instituições privadas e públicas de todo o Brasil. Temos um artigo aqui no Blog sobre a estrutura da TeHospedo.


Eventos essa semana

Agora nesta quinta e sexta-feira ocorre o encontro dos participantes dos PTT de todo o Brasil, o PTT Fórum. Vou postar uma continuação deste artigo com o que acontecer no Fórum, citando algumas palestras interessante aos leitores do TeHospedo Blog.

Update 22/10/2010: veja como foi o evento na cobertura de nosso Blog.

Update 10/11/2010: encontrei um ótimo artigo relacionado, de autoria de Carlos Ribeiro: O que é troca de tráfego IP, e porquê você deve se importar

Em anexo ao PTT Fórum teremos também um encontro dos empresários membros do #hostsbrasil que é a associação das empresas de hospedagem de sites que estamos fundando.

Sobre o autor

Roberto Bertó (http://twitter.com/darkelder) é diretor e fundador da TeHospedo, empresa de serviços de internet como hospedagem de sites e servidores cloud. Há 8 anos gerencia o marketing da TeHospedo. A TeHospedo também oferece o serviço TeContato, ferramenta de email marketing, o qual é usado por centenas de empresas. É desenvolvedor web há mais de 12 anos.
Formado em Ciências Contábeis pela UFRGS, está cursando um MBA em Marketing na FGV-RS.